quarta-feira, 24 de outubro de 2012
aH-Mar, por Diógenes Maciel
O maior mistério da vida é o amar. Foi por questões de Amor que Helena fugiu com Páris e desencadeou uma guerra de sete anos. Foi por Amor que Ulisses voltou pra casa para reencontrar Penélope. Essas histórias se referem à grande tradição épica clássica: as epopeias homéricas. Foram as epopeias que sugeriram boa parte da matéria mitológica que, depois, foi representada nos grandes festivais trágicos gregos. Foi num desses eventos que Ésquilo apresentou seu Agamêmnon, por volta de quase meio milênio antes da era cristã, como a primeira parte de uma trilogia trágica, chamada de Oresteia, dialogando com os mitos em torno dos Átridas, uma antiga linhagem de reis, envolta em crimes de sangue e desgraças irremediáveis. Helenistas costumam afirmar que a essa tragédia seria construída uma antiodisseia: enquanto Ulisses volta para casa e reencontra sua mulher casta e à sua espera; Agamêmnon, rei de Argos, encontrará sua esposa, Clitemnestra, amaziada com Egisto e tramando contra aquele que volta. São tramas de vingança, que se urdiram no dia da partida para a Guerra de Tróia, quando a rainha teve sua filha mais amada arrancada de seus braços para ser oferecida em holocausto à deusa que impedia a partida das naus gregas – por conta de uma guerra, travada por amores contrariados, Agamêmnon matou sua própria filha. Foi por amar demais que Clitemnestra encontrou seu lado noturno, e foi por isso que ela iniciou a tarefa de eclipsar, com as armas que tinha, o sol de seu rei e marido. Foi pelo amor de Helena – destruidora de naus e de cidades – que se traçaram destinos: como o da jovem sacerdotisa Cassandra, espólio de guerra, que também fará parte do banquete de sangue que se prepara no dia da chegada do rei, ausente depois de lutar e singrar mares. A Erínia lança suas garras, enquanto Thémis luta com Dikê: a vingança dança sobre um tapete púrpura, que leva do cais ao caos. Os direitos de sangue esmorecem diante dos direitos racionais dos homens. O tapete, o cais e o caos, recebendo quem chega, são caminhos para o prazer e para o desconhecido... e só nos lançamos rumo ao que não se conhece por Amar: Ah-Mar! Este projeto é uma grande homenagem a quem ama o teatro, a quem partiu e voltou, e a quem, do cais ao caos, ainda deseja encontrar a ordem. “Ah, mar! O maior mistério da vida é o amar!”
domingo, 14 de outubro de 2012
aH-Mar, por Chico Oliveira
Por amor, certo dia sai de minha terra em crise comigo mesmo.
Fui viver em um mar de gigantescos prédios, largas avenidas e de gente que se agitava
feito onda em dia de maré alta.
Tive medos e encantamentos!
Lembro-me
de ter vivido coisa parecida há alguns anos atrás, quando ainda era menino, e entrei
acidentalmente, pela primeira vez no Teatro Municipal Severino Cabral e vi com
meus próprios olhos a magia e a fúria da arte em forma de teatro.
Era
um “quadro gigantesco e azul” que estava em minha frente e precipitava-me a
lugares e sensações jamais experimentadas até então.
Um
tempo depois, por predestinação ou vocação, lá estava eu sobre esse mesmo palco
sentindo na alma a força da arte de ser ator.
Passaram-se
30 anos e aqui estou novamente, por aH-Mar, teimando em navegar por
entre ondas agitadas e calmas, que hora me levam e hora me trazem.
O
mar de sensações daquele primeiro encantamento ainda continuam comigo até hoje
e desejo compartilhar com todos vocês agora.
Faz-se
necessário hoje, em ato de comemoração, içar velas porque navegar e preciso e viver também.
Sempre!!!
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Temporada de repertório
O PINEL – Núcleo de Pesquisa e Experimentação Teatral, de Campina Grande (PB), estreia nos dias 26 e 27 de outubro o
espetáculo AH-MAR.
A peça é uma releitura da tragédia graga Agamêmnon, de Ésquilo, e narra a estória
do rei que, tendo oferecido sua filha em sacrifício aos deuses para vencer a
guerra de Tróia, encara a vingança da esposa e mãe de sua filha, quando do seu
retorno à casa.
O espetáculo (uma coprodução do PINEL e da Cia. do Rosário) comemora os trinta anos de carreira do ator Chico Oliveira, também de Campina Grande. O elenco conta ainda com Tânia Régia, no papel de Clitemnestra, a cantora Sandra Belê, que estreia como atriz no papel de Cassandra, e o ator Ivan D’paula, como Egisto/arauto.
A direção ficou a cargo de Duílio Cunha e o dramaturgismo do espetáculo foi elaborado por Diógenes Maciel.
O Núcleo pinel apresentou o seu espetáculo de
estreia em fins de 2011: Como se fosse
[im]possível ficar aqui, que tem no elenco, além do mesmo Chico Oliveira,
os atores Anderson Marcos, Nayara Brito e Regina Albuquerque. A peça abrirá a temporada de repertório do
grupo que acontece no Teatro Municipal Severino Cabral em dois finais de
semana: 19 e 20 de outubro – Como se
fosse [im]possível ficar aqui; e 26 e 27 de outubro – Ah-mar (estreia), sempre às 20h.
Os ingressos custam r$20,00 (inteira) e r$10,00 (meia).
Para o primeiro final de semana, o número de espectadores
será limitado.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
sexta-feira, 25 de maio de 2012
“COMO SE FOSSE [IM]POSSÍVEL FICAR AQUI” ENCERRA TEMPORADA EM CAMPINA GRANDE
Após as participações no VI Festival das Artes Cênicas, promovido pelo Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB) nas cidades de Juazeiro do Norte-CE e Sousa-PB, e na III Semana de Teatro da UEPB/SESC Campina Grande, ocorridos no mês de março, o espetáculo "Como se fosse [im]possível ficar aqui" do Núcleo de Pesquisa e Experimentação Teatral -PINEL, retomou suas atividades, promovendo uma temporada que tem seu encerramento nesse final de semana em Campina Grande.
Com essas apresentações, o grupo travou o desafio de manter o espetáculo em uma temporada mensal na cidade que, mesmo com uma crescente criação de grupos e de sua produção cênica, tem geralmente um número reduzido de récitas ou, ainda, a recorrência a um tipo de experiência teatral, muito mais próxima do modelo seriado das comédias de situação televisivas, que trazem roteiros novos a cada contato com público. A outra novidade é a ocupação de um novo espaço cênico, alternativo ao palco italiano, com a cessão da sala de dança do Teatro Municipal Severino Cabral, limitado a cerca de vinte pessoas por sessão. Este espaço, assim, determina uma série de adaptações à cena e dita uma nova relação seja com o espetáculo, seja com os atores, dada a proximidade com a plateia, que se coloca extremamente junto à área cênica.
Discute-se e propõe-se um diálogo com o público a partir de uma reflexão sobre partidas e retornos, sobre desejos de transformação, de mutação, através de relatos de vida dos próprios atores e do recorte – que forma uma espécie de mosaico de citações – de um sem número de textos da literatura universal, todos em torno deste grande tema, partindo da tradição grega e chegando até a poesia moderna de Fernando Pessoa, e reencontrando a tradição moderna em menções a Tchekhov e a Tennessee Williams, entre tantos outros. Costurando tudo isso, um conto de Ronaldo Correia de Brito, que funciona como uma espécie de caixa de ressonância de tudo o que se conta, com vistas a compartilhar uma experiência só completa a partir do olhar do público.
O Núcleo está feliz com a boa recepção desta temporada, de certa forma ousada para a dinâmica da cidade. No total, foram quatro finais de semana, todas as sextas e sábados, às 20h. O valor do ingresso quem decide é o próprio público ao final do espetáculo, quando, individualmente, depositam a quantia que acha justa num envelope entregue no início da apresentação. Próximos à reta final, o público ainda promete comparecer nesse, que vai ser o último final de semana de apresentações.
Ficha técnica:
Direção e cenografia: Duílio Cunha.
Dramaturgismo e concepção de figurino: Diógenes Maciel.
Elenco: Anderson Marcos; Chico Oliveira; Nayara Brito; Regina Albuquerque.
Iluminação: Napoleão Gutemberg.
Fotos: Mayara Silveira e Clarissa Santos.
Com essas apresentações, o grupo travou o desafio de manter o espetáculo em uma temporada mensal na cidade que, mesmo com uma crescente criação de grupos e de sua produção cênica, tem geralmente um número reduzido de récitas ou, ainda, a recorrência a um tipo de experiência teatral, muito mais próxima do modelo seriado das comédias de situação televisivas, que trazem roteiros novos a cada contato com público. A outra novidade é a ocupação de um novo espaço cênico, alternativo ao palco italiano, com a cessão da sala de dança do Teatro Municipal Severino Cabral, limitado a cerca de vinte pessoas por sessão. Este espaço, assim, determina uma série de adaptações à cena e dita uma nova relação seja com o espetáculo, seja com os atores, dada a proximidade com a plateia, que se coloca extremamente junto à área cênica.
Discute-se e propõe-se um diálogo com o público a partir de uma reflexão sobre partidas e retornos, sobre desejos de transformação, de mutação, através de relatos de vida dos próprios atores e do recorte – que forma uma espécie de mosaico de citações – de um sem número de textos da literatura universal, todos em torno deste grande tema, partindo da tradição grega e chegando até a poesia moderna de Fernando Pessoa, e reencontrando a tradição moderna em menções a Tchekhov e a Tennessee Williams, entre tantos outros. Costurando tudo isso, um conto de Ronaldo Correia de Brito, que funciona como uma espécie de caixa de ressonância de tudo o que se conta, com vistas a compartilhar uma experiência só completa a partir do olhar do público.
O Núcleo está feliz com a boa recepção desta temporada, de certa forma ousada para a dinâmica da cidade. No total, foram quatro finais de semana, todas as sextas e sábados, às 20h. O valor do ingresso quem decide é o próprio público ao final do espetáculo, quando, individualmente, depositam a quantia que acha justa num envelope entregue no início da apresentação. Próximos à reta final, o público ainda promete comparecer nesse, que vai ser o último final de semana de apresentações.
Ficha técnica:
Direção e cenografia: Duílio Cunha.
Dramaturgismo e concepção de figurino: Diógenes Maciel.
Elenco: Anderson Marcos; Chico Oliveira; Nayara Brito; Regina Albuquerque.
Iluminação: Napoleão Gutemberg.
Fotos: Mayara Silveira e Clarissa Santos.
terça-feira, 3 de abril de 2012
sexta-feira, 2 de março de 2012
Calendário de apresentações março/2012
Confira aqui as datas e locais das apresentações do Como se fosse [im]possível ficar aqui para o mês de março:
21.03
Juazeiro do Norte - CE
CCBNB do Cariri, 19h, Mostra Palco do VI Festival das Artes Cênicas.
Programação completa no site: http://teatroplural.blogspot.com/2012/02/ccbnb-centro-cultural-banco-do-nordeste.html
27.03
Sousa - PB
CCBNB de Sousa, 20h, Mostra Palco do VI Festival das Artes Cênicas.
Programação completa no link: http://pt.calameo.com/read/00056718453bb76dc6dc2
30.03
Campina Grande - PB
Cine-Teatro do SESC Centro, 20h, na programação da Semana do Dia Mundial do Teatro promovida pela UEPB.
Programação completa no site: http://www.livrepauta.com/2012/03/teatro-sesc-e-uepb-realizam-iii-semana.html
21.03
Juazeiro do Norte - CE
CCBNB do Cariri, 19h, Mostra Palco do VI Festival das Artes Cênicas.
Programação completa no site: http://teatroplural.blogspot.com/2012/02/ccbnb-centro-cultural-banco-do-nordeste.html
27.03
Sousa - PB
CCBNB de Sousa, 20h, Mostra Palco do VI Festival das Artes Cênicas.
Programação completa no link: http://pt.calameo.com/read/00056718453bb76dc6dc2
30.03
Campina Grande - PB
Cine-Teatro do SESC Centro, 20h, na programação da Semana do Dia Mundial do Teatro promovida pela UEPB.
Programação completa no site: http://www.livrepauta.com/2012/03/teatro-sesc-e-uepb-realizam-iii-semana.html
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Clipping
Ensaio para o Programa Diversidade (TV Itararé - TV Cultura):
Estreia (TV Itararé - TV Cultura):
Site Conexão Cultural:
Site Livre Pauta:
http://www.livrepauta.com/2011/11/em-campina-grande-quem-for-pinel-que.htmlSite Codisma:
http://www.portalcodisma.com.br/?p=9898
Jornal da Paraíba, 25 de novembro de 2011
(mesmo com algum erro):
http://jornaldaparaiba.com.br/noticia/70843_jp-e-cg-fazem-ponte-teatral
Correio da Paraíba, 25 de novembro de 2011:
Jornal O Norte, 25 de novembro de 2011:
Diário da Borborema, 25 de novembro de 2011:
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
domingo, 20 de novembro de 2011
NÚCLEO PINEL ESTREIA ESPETÁCULO COMO SE FOSSE [IM]POSSÍVEL FICAR AQUI
O PINEL – Núcleo de Pesquisa e Experimentação Teatral –, de Campina Grande-PB, estreia no próximo dia 25 de novembro de 2011 o espetáculo Como se fosse [im]possível ficar aqui.
A peça, em cuja dramaturgia se cruzam textos de autores clássicos da dramaturgia universal, além de Ronaldo Correia de Brito e Fernando Pessoa, faz uso de textos dos próprios atores que falam sobre idas e vindas, sobre a vontade inerente ao humano de partir e sua impossibilidade, imposta pela necessidade de ficar.
A fábula une uma concepção dupla de espaço-tempo: é o tempo da memória e o tempo da vida, o espaço da vida e o espaço da morte. Por estes caminhos acompanhamos a história de Ciça, jovem que, na esperança de uma vida promissora longe da seca que assola sua terra natal, é imbuída pela necessidade de decidir partir ou ficar – o que reverberará em toda sua existência. Esta mesma mulher, no futuro, se torna grande artista, uma diva dos palcos – vivendo todos os luxos e amores que sua nova posição lhe proporciona. Em dado momento, casa-se, e esse matrimônio a coloca, mais uma vez, no estado de prisão em que vivia no passado. Novamente, ela tem que decidir e, para isso, tem que reencontrar a menina de outrora e refazer os caminhos e decisões.
Encenação e dramaturgia contam essa história em espelho, alternando momentos da jovem Ciça (interpretada pela atriz Nayara Brito) com momentos da Diva (interpretada pela atriz Regina Albuquerque), que se encontram, ao final do espetáculo, num lugar-comum (ou “lugar-nenhum”), a que se chamou de estação. Os atores (Anderson Marcos e Chico Oliveira) compõem os vários homens que cruzam estas estórias, enquanto também recontam suas próprias histórias.
O processo que deu origem ao que irá estrear na próxima sexta-feira começou em fins de 2010, quando surgiu o PINEL, hoje formado por 1 diretor, 1 dramaturgista e 4 atores. Foram apresentadas e discutidas com o público, ao longo desse ano, três cenas-ensaio, como hipóteses a serem testadas dentro da pesquisa a que o Núcleo se propõe, dessas cenas surgindo o Como se fosse [im]possível ficar aqui.
O espetáculo fica em temporada de 25 a 27 de novembro, no Centro de Arte e Cultura da UEPB (antigo Museu de Arte Assis Chateaubriand), sempre às 20h, com limite de 30 ingressos por sessão.
Preço dos ingressos:
R$ 10,00 inteira;
R$ 5,00 meia.
Ficha técnica:
Direção e cenografia: Duílio Cunha.
Dramaturgismo e concepção de figurino: Diógenes Maciel.
Elenco: Anderson Marcos; Chico Oliveira; Nayara Brito; Regina Albuquerque.
Iluminação: Napoleão Gutemberg.
Fotos: Mayara Silveira e Clarissa Santos.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Na iminência
Há tempos que não visito esta página.
Estava resistindo em postar aqui novamente. Tenho escrito muito, fora daqui, sobre nossos ensaios, sobre como estamos dando cada passo.
Fato é que agora as coisas estão para acontecer, de verdade, por entre um turbilhão achamos uma brecha e estamos passando, de figurino novo, de vontade renovada, a vitamina foi batida e estamos terminando de temperar o que foram as nossas três cenas-ensaio até, finalmente, transformá-las no Como se fosse [im]possível ficar aqui.
A coisa tá ficando bonita, acho, mas sou suspeita pra falar.
Há uma semana, talvez, recebi um novo impulso, um gás, um estalo que me fez acordar e contemplar - e, mais ainda, amar, meus caros - o que está para acontecer. E estou mesmo animada.
É isso, gente, não paramos. E em breve estaremos de volta. Aguardem.
Estreia: 25 de novembro.
Nayara Brito
Estava resistindo em postar aqui novamente. Tenho escrito muito, fora daqui, sobre nossos ensaios, sobre como estamos dando cada passo.
Fato é que agora as coisas estão para acontecer, de verdade, por entre um turbilhão achamos uma brecha e estamos passando, de figurino novo, de vontade renovada, a vitamina foi batida e estamos terminando de temperar o que foram as nossas três cenas-ensaio até, finalmente, transformá-las no Como se fosse [im]possível ficar aqui.
A coisa tá ficando bonita, acho, mas sou suspeita pra falar.
Há uma semana, talvez, recebi um novo impulso, um gás, um estalo que me fez acordar e contemplar - e, mais ainda, amar, meus caros - o que está para acontecer. E estou mesmo animada.
É isso, gente, não paramos. E em breve estaremos de volta. Aguardem.
Estreia: 25 de novembro.
Nayara Brito
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Inícios: ainda a forma do conto

por
Diógenes Maciel
Creio que a forma como temos trabalhado, nesta jornada atual do PINEL, teve seu centro numa demanda pessoal de Duílio [Cunha]. Ele estava querendo trabalhar com formas narrativas no teatro. Ou seja: adoro! Eu sempre fui taxado como dramaturgo [morro de medo disso!] que escreve teatro narrativo. Alguém, certo dia, até já chegou a dizer que, nos meus textos, as “personagens não conversam...” Realmente, talvez, isso seja verdade. Hoje em dia tenho impressão de que eu faço isso conscientemente, como proposta estética, opção mesmo de trabalho. Todavia, nos meus primeiros exercícios, a coisa ia aparecendo assim mesmo, sem planejamento, na medida em que a matéria ia se formalizando. Então, o que fazer?
Tenho predileção pela “contação” de histórias. Obviamente, estou inserido em minha própria experiência como leitor de teatro. Afinal, o que eu leio? As tragédias gregas, ou o drama moderno [europeu e estadunidense, além, óbvio do brasileiro]. Daí, a questão fica bastantemente mais simples de entender. Se o diálogo formal é meio comunicacional no teatro, e isso está lá nas tragédias, ele também, neste contexto, se combinava com excertos narrativos apreensíveis nas falas do coro, que situava o conflito, trazia informações externas, contava, então, a história. Não vou aqui traçar uma linha da história do teatro, mas, como já nos ensinou Peter Szondi, tal tendência aparecerá no teatro medieval, nas peças elizabetanas, no drama barroco. A questão é quando chegamos ao drama moderno. Neste momento, fins do século XIX, o diálogo formal começa a ser problematizado, como vemos em Tchekhov, e as personagens quase desempenham o diálogo ‘de surdos’, ou seja, a comunicação fica truncada, improdutiva. E esse processo vai se radicalizando até a esfera narrativa começar a dominar a cena, como teremos em Brecht, o que não quer dizer que o diálogo desapareça. Sempre acho que, mesmo nos monólogos, há um diálogo, nem que seja com a platéia. A questão é que não acredito mais na peça de conversação. Ela não diz de nosso momento sociocultural, de nosso estar-no-mundo. Há muita discussão teórica sobre isso e agora mesmo ando lendo sobre isso e estou encantado com as reflexões do Luís Alberto de Abreu – um capítulo para outra conversa nossa.
Voltando ao começo. Duílio, então, nos propunha o trabalho a partir da narrativa curta. Os atores da primeira etapa [eram sete àquela altura] trouxeram contos curtos. E eu lá com “Cícera Candoia”, de Ronaldo Correia de Brito, debaixo do braço! Não era possível desprezar o material sobre o qual eu falei no post anterior. As improvisações e o treinamento técnico começaram. Foram tardes e tardes tentando descobrir possibilidades: observar o outro, problematizar a situação, escolher o ponto de vista, sair e entrar da personagem, analisar criticamente a personagem, distanciar-se dela, aproximar-se dela, descobrir a voz, o corpo. Afinal, como se “conta” uma história no teatro? – É necessário descobri isso, treinar. Observar o outro, ver a ação se construindo no arcabouço verbal, mas, também, no plano da ação física, que, em princípio, não deve, apenas, ilustrar. Creio que para este primeiro grupo, o exercício parecia sem sentido: quais os personagens? De onde eles partem? Como se constrói um personagem diante disso? E, ao que me parece, isso não era o mais relevante, mas, antes, o ponto de vista. De onde se narra? Quem narra? Como o ator se torna um narrador – ou, como temos chamado, a partir de Sarrazac, um rapsodo? Curiosamente, como na tradição grega, o rapsodo já era um algo extremamente diverso: junção de ator, declamador, recitador, performer e especialista em literatura, capaz de discuti-la, com alguma competência, após a sua apresentação, em público. O centro era o texto e sua capacidade de performatizá-lo [será que isso se escreve assim, meu Deus?] para uma platéia e o texto era, sempre, de natureza épico-narrativa.
Penso que, diante deste impasse, de tarde infindáveis de exercícios que, apenas aparentemente, não levavam a nenhum lugar, o grupo foi se reduzindo e restaram cinco. Diante de um novo impasse, e de demandas do grupo, acabamos por formalizar um primeiro princípio: iríamos começar a lançar um desafio que se centraria na possibilidade de mostrar resultados provisórios, afinal, o que tínhamos na mão era uma pesquisa. E, em algum momento, ela tinha que ser lançada ao público, testada em suas hipóteses, em suas certezas provisórias, rumo a um resultado provável, mas já vislumbrável.
Com as várias partidas, fomos para o que já havia. E “Ciça” voltou. Este seria, portanto, a primeira idéia a ser trazida à cena. Na verdade, na verdade, a primeira idéia do PINEL foi, talvez por conta da minha presença, propor uma montagem de uma adaptação que eu fizera, tempos atrás, sob encomenda, de dois textos de Brito – o tal falado aqui “Cícera Candoia” e “Mentira de Amor”, ambos de Faca. Eu, no fundo, tinha – e talvez tenha – o desejo de ver uma montagem do, assim chamado, Armadilhas. Acho que, àquela altura, havia uma espécie de consenso imposto de que essa culminaria como sendo a primeira montagem do PINEL. Se era assim, então, começamos, de maneira mais efetiva a pensar no núcleo de Ciça para uma primeira possibilidade de exposição pública de nossos intentos. Sendo que, na medida em que o trabalho de treinamento avançava, eu não conseguia mais ver o Armadilhas. Era algo novo que se anunciava, mesmo que a história de Belmira, ainda me perturbasse e eu quisesse fazer isso. Não mais só Ciça que se impunha, havia a maravilha dos depoimentos de Nayara e Regina. E eles tinham que aparecer. Era uma coisa que havia eclodido com muita força em algumas das tardes de preparação: quem éramos nós mesmos? Isso precisava aparecer nos textos. Quais os limites, afinal, entre ator-narrador, ator-personagem e ator-pessoa física?
Pedi, então, a Anderson e a Cláudia – os restantes, junto com Chico, que viajara para Sampa, de férias – que, também, me escrevessem algo. Não preciso dizer que els não fizeram – Anderson só fez bem depois, sob muita pressão. Ódio dele por isso! E, nas nossas muitas conversas, aparecia sempre um incomodo: uma vontade danada de fazer algo, outra vontade danada de correr mundo, outra vontade danada de voltar – no tempo, no espaço, na imaginação.... E, então, eu ganhava o título que hoje dá nome ao nosso trabalho, brotando, se impondo e surgindo de tudo isso: ao mesmo que tempo que era possível – ou deveria ser – ficar aqui [no tempo histórico, no espaço, na vida] também era urgente ir, partir, mas, também, voltar. Foi assim que eu batizei o que viria a ser de Como se fosse [im]possível ficar aqui. Apesar da grandiloqüência do enunciado, era um título, caro a mim, pois das possibilidades surgem o seu contrário, e vice-versa. As pessoas gostaram. E Duílio teve a primeira idéia chave; partiríamos, então, antes da estréia de qualquer espetáculo o nosso trabalho em três exercícios, com um cronograma, mais ou menos, amarrado. Teríamos o compromisso, a partir dali, de apresentar: [1] o Como se fosse...; depois o [2] [im]possível e, por fim, o ... ficar aqui. E assim, começamos.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Primeiras Fotos...
Na última sexta-feria, dia 12 de Agosto foram apresentadas as três cenas-ensaios do Pinel nomeadas de: Como se fosse [im]possível ficar aqui.
Estas são algumas fotos, confira!!!
Alyson Jesuíno
domingo, 14 de agosto de 2011
Retratos Moldados
O meu olhar diante dos atores do Pinel...
Sobre a atriz Nayara Brito, há este texto lindo de Caio F. Abreu que a descreve perfeitamente:
Ela é uma moça de poses delicadas, sorrisos discretos e olhar misterioso. Ela tem cara de menina mimada, um quê de esquisitice, uma sensibilidade de flor, um jeito encantado de ser, um toque de intuição e um tom de doçura. Ela reflete lilás, um brilho de estrela, uma inquietude, uma solidão de artista e um ar sensato de cientista. Ela é intensa e tem mania de sentir por completo, de amar por completo e de ser por completo. Dentro dela tem um coração bobo, que é sempre capaz de amar e de acreditar outra vez. Ela tem aquele gosto doce de menina romântica e aquele gosto ácido de mulher moderna.
Um texto da escritora Lisiê Silva fala muito bem da atriz Regina Albuquerque. Seu texto diz, à respeito da mulher madura:
Até os 40 anos, a mulher tem o direito de ensaiar a sua presença no espetáculo da vida, após os 40 as cortinas se abrem e ela está pronta para começar a atuar como estrela principal. Principalmente para ela mesma, pois já cumpriu as obrigações e os deveres que lhe foram atribuídos pela sociedade e familiares.
A mulher madura possui uma inteligência reveladora, um quê de mistério, um jeitinho de sedutora, uma beleza atraente, é dona de si. Ela respira juventude e transpira maturidade. Possui encantos que ela mesma não consegue disfarçar. É experiente, metade da vida já viveu, e guardou histórias pra contar.
Ela acompanhou a evolução dos últimos tempos, sabe do passado, vive o presente e aguarda o futuro.
Ela evoluiu com o passar dos tempos, lutou pelos seus direitos, revolucionou mitos e preconceitos, derrubou barreiras que o passado construiu ao seu redor, quebrou regras e tabus, abriu as janelas do mundo para vislumbrar novos horizontes, conquistando o seu espaço, de igual para igual, na vida, no trabalho e na sociedade masculina.
A mulher madura é forte, é determinada, é independente, tem jogo de cintura, procura e encontra saídas, enfrenta situações e resolve problemas, tem opinião, tem memória. Tem afeto e aprendeu a amar.
À respeito ao ator Anderson Marcos, uso um texto de um escritor desconhecido, o qual, eu creio, serve para descrevê-lo:
"Depois de plantada a semente deste incrível arbusto, não se vê nada, absolutamente nada, por um tempo - exceto o lento desabrochar de um diminuto broto, a partir do bulbo. Durante esse tempo, todo o crescimento é subterrâneo, numa maciça e fibrosa estrutura de raiz, que se estende vertical e horizontalmente pela terra. Mas então, o bambu cresce, muito até as alturas". “Muitas coisas na vida (pessoal e profissional) são iguais ao bambu. Você trabalha, investe tempo e esforço, faz tudo o que pode para nutrir seu crescimento, e às vezes não se vê nada por semanas, meses ou mesmo anos. Mas, se tiver paciência para continuar trabalhando e nutrindo, o tempo chegará e o crescimento e a mudança que se processam o deixarão espantado. O bambu mostra que não podemos desistir fácil das coisas... Em nossos trabalhos, especialmente projetos que envolvem mudanças de comportamento, cultura e sensibilização para ações novas, devemos nos lembrar do bambu que apesar de toda a sua altura, ele é capaz de curvar-se até o chão diante de um vendaval. No entanto, tão logo cesse o vento, ele se reergue e volta a ser majestoso como sempre. Devemos lembrar sempre do bambú para não desistirmos fácil frente às dificuldades que surgem e que são muitas".
Ao falar do ator Chico Oliveira, me vem à memória um belo trecho da obra da minha querida Clarice Lispector que diz:
...Há impossibilidade de ser além do que se é, no entanto eu me ultrapasso mesmo sem o delírio, sou mais do que eu, quase normalmente tenho um corpo e tudo que eu fizer é continuação de meu começo...
A única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo.
Quem sou? Bem, isso já é demais...
Quem sou? Bem, isso já é demais...
Mas, pra mim, Chico Oliveira tem uma figura imponente, que se destaca. Ele parece com uma árvore frondosa que, de tão alta, dá pra acompanhar seu crescimento. O jequitibá é um belo exemplo do que compararei com ele, o nome jequitibá em tupi-guarani significa gigante da floresta, o que é compreensível, pois, quando é adulta, esta árvore se destaca das demais. Assim ele o faz, sua postura, sua voz mansa, seu jeito de mostrar sua figura, são todos predicados dos dois, da árvore e de Chico Oliveira.
Alyson Jesuíno
Sentidos e Sensações
O dia “D” do Pinel foi na última sexta-feira 12, o grupo se reuniu e partiu de Campina Grande com destino à Piollin em João Pessoa: a expectativa e emoção tomavam conta de todos, menos do diretor Duílio Cunha o qual se dizia: tranqüilo e sereno. Estava tudo arrumado, atores prontos, texto passado, organização e o público chegando. A apresentação começou às 19h20min, e, com uma trilha de intrigar e agarrar pela mão a nossa memória, a cena começou.
A primeira cena-ensaio veio com calma e suavidade, trabalhando com “Cícera Candóia” e dando sua belíssima versão nos palcos com força e sentimento. Nessa cena, o tema fica em torno de Cícera da sua mãe, as atrizes: Nayara Britto e Regina Albuquerque, me deixaram abismado com sua sincronia e emoção à flor da pele, o que me arrepiava a cada fala. Houve um momento, para mim, sublime: quando a conversa da mãe com Cícera, falando do passado era dividida entre os atores Regina Albuquerque e Chico Oliveira. A cena se encerra com a partida de Cícera. Há um pequeno intervalo e a segunda cena já se inicia.
A segunda cena-ensaio começa, mas está diferente da primeira: vem com som e fúria!
Ao som da trilha sabemos que a cena irá começar, e mais bela e sincronizada do que antes, com textos dos próprios atores intercalados com os textos do dramaturgista, o grupo mostra sua cara, sua força, seu amor pela arte. A cena vem tomada pela emoção e características dos atores, os quais revelam: quem sou eu e porque estou aqui. Textos que eles mesmos criaram dando suas faces aos personagens e trazendo a cena para a nossa realidade.
Já no meio da cena, os textos se misturam à voz grave e peculiar da atriz Nayara Brito que cantando “Mamãe, Coragem” nos emocionou e nos remeteu a lembranças da nossa vida.
A terceira cena inicia e vem com um fulgor enorme, logo todos notam e até comentam que esta é a cena em que os atores mostram a que vieram, a cena completa é feita com muita emoção e vivacidade, todos estão conectados pelas duas primeiras cenas e essa terceira vem pra arrematar e dar o ponto final. As falas e o simbolismo caracterizando a [im]possibilidade de partir e a vontade de ficar. Todos os atores, com o seu próprio sentimento de ir ou ficar dão o tom à cena que se finaliza belíssima com um abraço caloroso, que só é interrompido pelo aplauso da platéia.
Alyson Jesuíno
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